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Ozempic, Wegovy e Rybelsus: semaglutida (GLP-1) pode melhorar a saúde mental?

Jovem sentado à mesa com expressão de dor, mão no peito e outra na cabeça, em ambiente iluminado com plantas.

Medicamentos criados para perda de peso também poderiam trazer ganhos para a saúde mental? Evidências recentes apontam que sim - e a base científica por trás dessa hipótese está a ficar mais consistente.

Fármacos como Ozempic, Wegovy e Rybelsus são usados no tratamento da diabetes e também no apoio ao emagrecimento. Eles contêm semaglutida e fazem parte de uma classe conhecida como medicamentos GLP-1.

Em geral, médicos prescrevem esses remédios para ajudar a controlar a glicemia e diminuir a fome. No entanto, investigadores da Universidade do Leste da Finlândia e de instituições parceiras identificaram um achado inesperado.

De acordo com o estudo, esses medicamentos podem estar associados a melhorias na saúde mental. Entre os utilizadores, observaram-se menos sinais de depressão, ansiedade e problemas relacionados a dependências.

Corpo e mente estão ligados

A saúde física e a saúde mental andam juntas. Pessoas com diabetes ou obesidade frequentemente enfrentam mais stress e podem sentir-se mais ansiosas ou deprimidas.

Ao mesmo tempo, quadros de saúde mental também podem favorecer hábitos menos saudáveis, como comer em excesso ou reduzir a prática de atividade física. Isso piora a saúde do corpo e pode gerar um ciclo em que uma condição reforça a outra.

Por essa razão, cientistas decidiram investigar se tratar o corpo poderia, em paralelo, trazer benefícios para a mente.

Para isso, os pesquisadores analisaram cerca de 95 mil pessoas na Suécia. Todas tinham depressão, ansiedade ou ambas as condições. Muitas também conviviam com diabetes.

O acompanhamento ocorreu ao longo de vários anos. A equipa comparou como as pessoas se saíam em períodos em que usavam esses medicamentos versus períodos em que não usavam - o que ajudou a isolar melhor os efeitos associados aos fármacos.

Saúde mental melhorou com os medicamentos

Os resultados apontaram um padrão claro: quem utilizava semaglutida apresentou uma saúde mental significativamente melhor.

A probabilidade de problemas graves de saúde mental diminuiu em cerca de 42%. A depressão tornou-se menos frequente, e a ansiedade também recuou.

Além disso, houve menos necessidade de atendimentos hospitalares ligados à saúde mental. As pessoas também se ausentaram menos do trabalho por causa de stress ou depressão. Um outro medicamento, a liraglutida, também mostrou benefício, porém com efeito inferior ao da semaglutida.

Menos dependência e menor risco de autoagressão

O estudo ainda registou menos casos de problemas relacionados ao uso de álcool ou drogas entre pessoas que tomavam esses medicamentos.

Também foi observado um risco mais baixo de autoagressão. Esse ponto chama atenção porque pesquisas anteriores tinham levantado preocupações sobre a relação entre esses fármacos e a saúde mental.

“Um estudo anterior que examinou registos suecos constatou que o uso de medicamentos GLP-1 estava associado a um risco reduzido de transtorno por uso de álcool”, afirmou o coautor do estudo, Dr. Mark Taylor, da Universidade Griffith.

“Problemas relacionados ao álcool muitas vezes têm efeitos em cadeia sobre o humor e a ansiedade, então esperávamos que o efeito também fosse positivo nessas áreas.”

Como esses medicamentos afetam o cérebro

Os cientistas ainda procuram entender os mecanismos por trás dessa associação, mas já existem algumas hipóteses. Em primeiro lugar, a perda de peso pode aumentar a autoconfiança. Um controlo glicémico mais eficaz também pode reduzir o stress fisiológico no organismo.

Porém, a explicação pode ir além disso. É possível que esses medicamentos atuem diretamente no cérebro, influenciando a forma como ele regula humor, recompensa e motivação.

“Como este é um estudo baseado em registos, não conseguimos determinar exatamente por que ou como esses medicamentos afetam os sintomas de humor, mas a associação foi bastante forte”, disse o coautor do estudo, Dr. Markku Lähteenvuo, Diretor de Pesquisa da Universidade do Leste da Finlândia.

Os pesquisadores sugerem que os benefícios podem surgir não só de mudanças de estilo de vida - como menor consumo de álcool, perda de peso, melhoria da autoimagem ou melhor controlo da glicemia -, mas também de efeitos diretos no cérebro.

Em especial, esses fármacos podem influenciar vias neurobiológicas, incluindo alterações no funcionamento do sistema de recompensa cerebral.

Nem todos os medicamentos mostram os mesmos efeitos

Um dos achados mais nítidos foi que nem todos os remédios parecidos apresentam resultados equivalentes.

A semaglutida demonstrou os benefícios mais fortes, enquanto a liraglutida teve um efeito mais discreto. Outros medicamentos da mesma classe, por sua vez, não mostraram melhorias claras na saúde mental.

Isso indica que os ganhos não são universais, mesmo entre fármacos muito relacionados. Entender por que alguns funcionam melhor do que outros pode orientar o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes no futuro.

Implicações para tratamentos futuros

Depressão e ansiedade são condições comuns e podem tornar-se graves a ponto de atrapalhar a vida diária, inclusive a capacidade de trabalhar.

Os achados sugerem que certos medicamentos podem, ao mesmo tempo, melhorar a saúde física e o bem-estar mental. Quando um único tratamento apoia corpo e mente, o cuidado tende a ficar mais simples e a recuperação, mais viável.

Ainda assim, são necessárias mais pesquisas. Embora o estudo mostre uma ligação forte, ele não prova que esses medicamentos melhorem diretamente a saúde mental.

Estudos futuros devem esclarecer como esses efeitos acontecem. Mesmo assim, os resultados abrem uma possibilidade encorajadora: tratamentos pensados para o corpo também podem beneficiar a mente.

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