Se você já tentou criar um novo hábito - seja se exercitar mais, comer de forma mais saudável ou dormir mais cedo - provavelmente já ouviu a ideia popular de que bastam 21 dias para formar um hábito.
É uma proposta bonita: curta, motivadora e cheia de promessa. Só que há um detalhe: ela não corresponde à realidade.
A origem do mito dos 21 dias costuma ser atribuída a Maxwell Maltz, um cirurgião plástico dos anos 1960, que notou que seus pacientes levavam cerca de três semanas para se acostumar a mudanças físicas. Depois, a noção foi reproduzida em livros de autoajuda e, com o tempo, acabou virando “verdade” para muita gente.
O problema é que, como psicólogos e cientistas do comportamento demonstraram depois, a formação de hábitos é bem mais complexa.
Quanto tempo realmente leva?
Um estudo de 2010 acompanhou voluntários que tentavam adotar rotinas simples - como beber água depois do café da manhã ou comer uma fruta por dia - e constatou que o tempo mediano para o comportamento se tornar automático foi de 66 dias.
Nós também revisámos recentemente vários estudos que avaliaram quanto tempo as pessoas levam para formar hábitos ligados à saúde. Em média, os resultados apontaram para algo em torno de dois a cinco meses.
De modo mais específico, os estudos que mediram o tempo até alcançar a automaticidade (quando um comportamento passa a sair “no piloto automático”) mostraram que a formação do hábito levou entre 59 e 154 dias. Algumas pessoas conseguiram em apenas quatro dias. Outras precisaram de quase um ano.
Essa variação grande deixa claro que não existe um prazo único que sirva para todos. O tempo depende de qual é o comportamento, da frequência com que ele se repete, do nível de complexidade e de quem está a tentar adotá-lo.
O que faz um hábito se manter?
A força do hábito influencia diretamente a consistência. Uma revisão sistemática de 2021 sobre atividade física concluiu que, quanto mais forte o hábito (ou seja, quanto mais automático e menos trabalhoso ele parece), maior a probabilidade de a pessoa se exercitar com regularidade.
Não é exatamente inesperado que comportamentos fáceis e de baixo esforço - como beber água ou tomar uma vitamina diariamente - se consolidem mais depressa do que metas complexas, como treinar para uma maratona.
Ainda assim, independentemente do hábito, a pesquisa indica que manter a prática não se resume a aumentar motivação ou força de vontade. Intervenções que apoiam ativamente a formação de hábitos - com repetição, gatilhos e estrutura - tendem a ser bem mais eficazes para criar mudanças duradouras.
Por exemplo, programas que incentivam a marcar o exercício sempre no mesmo horário do dia, ou aplicativos que enviam lembretes para beber água após cada refeição, ajudam a construir hábitos porque tornam o comportamento mais fácil de repetir e mais difícil de esquecer.
A nossa pesquisa, baseada em dados de mais de 2.600 pessoas, mostrou que intervenções voltadas à criação de hábitos podem fazer diferença em vários comportamentos - desde usar fio dental e alimentar-se melhor até praticar exercícios com regularidade.
O ponto mais marcante, porém, foi perceber que até ações pequenas do dia a dia podem virar rotinas poderosas quando são repetidas de forma consistente. Não se trata de transformar a vida de um dia para o outro, e sim de reforçar comportamentos aos poucos até que eles se tornem naturais.
8 dicas para construir hábitos duradouros
Se você quer criar um novo hábito, estas são algumas dicas baseadas em evidências para aumentar as chances de ele “pegar”:
- Dê tempo ao processo. Priorize a consistência por 60 dias. A meta não é perfeição - falhar um dia não “zera” a contagem.
- Facilite ao máximo. Comece pequeno. Escolha um comportamento que você consiga, de fato, repetir todos os dias.
- Cole o novo hábito a uma rotina já existente. Em outras palavras, torne-o mais fácil de lembrar ao ligá-lo a algo que você já faz - como passar fio dental logo antes de escovar os dentes.
- Acompanhe o seu progresso. Use um calendário ou aplicativo para marcar cada dia cumprido.
- Inclua recompensas - por exemplo, preparar um café especial depois de uma caminhada matinal ou ver um episódio da sua série favorita após uma semana de treinos consistentes. Emoções positivas ajudam o hábito a fixar, então comemore pequenas vitórias.
- De manhã tende a funcionar melhor. Hábitos praticados pela manhã costumam se consolidar de modo mais confiável do que os tentados à noite. Uma possível explicação é que, mais cedo, as pessoas em geral têm mais motivação e menos distrações, o que facilita manter novas rotinas antes de as exigências do dia se acumularem.
- Escolha pessoal aumenta a chance de sucesso. As pessoas tendem a manter mais os hábitos que elas próprias escolhem.
- Repetição em um contexto estável é essencial. Fazer o mesmo comportamento na mesma situação (como caminhar sempre após o almoço) eleva as chances de ele se tornar automático.
Por que o mito dos 21 dias importa
Acreditar que hábitos se formam em 21 dias leva muita gente a frustrar-se. Quando a mudança não “encaixa” em três semanas, é comum pensar que há algo errado com o próprio esforço. Isso pode gerar frustração, culpa e desistência.
Já compreender o tempo real ajuda a sustentar a motivação quando o progresso parece lento.
As evidências sugerem que formar um hábito geralmente exige pelo menos dois meses, e por vezes mais. Mas elas também mostram que mudar é possível.
A nossa pesquisa e outros estudos confirmam que ações repetidas, intencionais e feitas em contextos estáveis de fato se tornam automáticas. Com o passar do tempo, novos comportamentos podem parecer leves, fáceis e profundamente enraizados.
Assim, seja para se mover mais, comer melhor ou dormir de forma mais adequada, a chave não é a velocidade - é a consistência. Continue. Com o tempo, o hábito fica com você.
Ben Singh, Pesquisador (Research Fellow), Saúde Aliada e Desempenho Humano, Universidade do Sul da Austrália; e Ashleigh E. Smith, Professora Associada, Envelhecimento Saudável, Universidade do Sul da Austrália
Este artigo é republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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