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Portugal Fashion: 55ª edição tem retorno de Diogo Miranda na A-Line e pausa de Susana Bettencourt

Modelo feminina desfila vestido branco de manga 3/4 em passarela com público em ambiente interno iluminado.

O último dia do Portugal Fashion na 55ª edição ficou marcado por dois movimentos opostos - um retorno e uma pausa. De um lado, Diogo Miranda voltou à passarela ao assumir a direção criativa da A-Line; do outro, Susana Bettencourt comunicou que vai interromper as apresentações. Em comum, os episódios reforçaram a ideia de um setor em mudança, que insiste em se renovar e em ganhar espaço fora do país.

O Portugal Fashion Experience encerrou a 55ª edição no M-ODU, no Porto, sob aplausos e emoção, com uma sensação de confiança renovada. A volta de Diogo Miranda aos desfiles - agora pela A-Line - e a decisão de Susana Bettencourt de parar por um tempo ajudaram a desenhar um retrato de uma moda portuguesa em transformação, mas focada em consolidar a projeção internacional.

Diogo Miranda retorna à passarela com a A-Line

Passados três anos desde que deixou de apresentar desfiles em nome próprio, Diogo Miranda reapareceu na passarela por meio da A-Line, marca cuja direção criativa assumiu há dois anos. Em conversa com o JN, o designer reconheceu que nunca se viu regressando aos grandes desfiles por outra insígnia - e respondeu com um categórico "Não, não, não, de todo" quando essa possibilidade foi colocada.

Com a aproximação do horário da apresentação, ele admitiu que o frio na barriga continuava fazendo parte do ritual. "Acho que agora estou a começar a ficar com aquela ansiedade e um bocadinho mais nervoso, mas acho que é normal", disse, lembrando o peso de atender às expectativas e à curiosidade em torno dessa nova fase.

Coleção inspirada em Lisboa e no ADN da camisaria

Tendo Lisboa como ponto de partida - dos azulejos à arquitetura e às cores - a coleção levou a camisaria, DNA da A-Line, para novas leituras em vestidos, túnicas e coordenados femininos e masculinos. Mais do que lançar uma estética diferente, o objetivo foi evidenciar como a marca evoluiu desde que ele assumiu o comando criativo.

"A A-Line nasceu num berço industrial e a minha ideia foi mostrar que pode ser uma marca de moda ao nível das grandes marcas europeias e mundiais", explicou. Segundo ele, o caminho já permitiu colocar a etiqueta em pontos de venda como a Loja das Meias e atrair novos clientes. Ao defender que o cenário atual favorece o setor, sustentou que "Portugal está a ser descoberto neste momento" e que o país precisa "aproveitar essa leva". Antes de entrar na passarela, resumiu o que buscava com a apresentação: "Quero fazer um bom show (...) que no fim fiquem felizes de ver."

Uma pausa para criar com tempo

Se a volta de Diogo Miranda era um dos momentos mais esperados, a participação de Susana Bettencourt trouxe um dos instantes mais emocionantes da edição. Após apresentar "Equinócio", coleção que celebra os 15 anos da marca, ela anunciou que vai interromper as apresentações na passarela e fechar o atual ateliê para preparar um novo ciclo.

"Estou medicamente exausta", contou, explicando que o ritmo imposto pela indústria passou a impedi-la de aproveitar o processo criativo. A designer admitiu que vinha desenvolvendo coleções "sempre a correr" e concluiu: "Se não estou a fazer aquilo de que mais gosto, prefiro parar."

Ainda assim, ela fez questão de afastar qualquer leitura de despedida: "A marca não vai fechar. Eu vou continuar", garantiu. A ideia, segundo explicou, é investir em um modelo made-to-order, produzir pequenas coleções no próprio tempo e finalizar o doutorado.

A pausa também deve abrir caminho para o que considera seu projeto mais ambicioso: uma fábrica-escola-ateliê que una produção, ensino, inovação tecnológica e intervenção social. "Quero trabalhar em parceria" e "quero pessoas que se juntem para fazer aquilo que eu não sou boa a fazer e que tragam mais-valias", afirmou, mencionando a intenção de envolver empresas como Shima Seiki e Mandarim, além de buscar investidores para tornar viável uma iniciativa que reconhece ser de longo prazo.

Um setor que olha para o futuro

A programação do dia final também reforçou a diversidade criativa do evento. Da emoção de Joana Maltez, que encerrou o desfile da Malteza em lágrimas ao homenagear a mãe, Maria dos Anjos, às propostas internacionais de Judy Sanderson, Daneh e do luso-descendente Gabriel Figueiredo com a marca De Pino, o line-up abriu espaço ainda para a reflexão de Estelita Mendonça sobre os impactos da produção em massa.

Depois da sensualidade irreverente de Davii, coube à Lo Siento fechar o dia com "Kill Me Before the War", coleção estruturada a partir do upcycling, com destaque para vestidos confeccionados com paraquedas originais da Segunda Guerra Mundial.

No balanço, Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion, reconheceu ao JN que os últimos meses foram "difíceis", mas ressaltou "a grande resiliência e criatividade" da equipe para viabilizar um formato anual que pretende ir além da lógica exclusiva dos desfiles.

Ao defender que "o Portugal Fashion tem que ser visto sempre como um diálogo entre cultura e economia", ela argumentou que o novo modelo aproxima a moda da indústria, da gastronomia, do turismo e do patrimônio - sem abandonar a vocação internacional. "A nível internacional a nossa ambição continua bastante reforçada", afirmou, acrescentando a expectativa de que "em setembro haja um regresso às Fashion Weeks".

Na primeira fila, como convidado, Rodrigo Passos, vereador da Juventude e Desporto da Câmara Municipal do Porto, reforçou o peso do evento para a cidade. Para ele, "é naturalmente um evento muito importante (...) pelo modo como consegue trazer ao de cima muito talento", além de ser "uma marca de Portugal para o mundo".

Questionado sobre a redução do apoio municipal, admitiu que "é verdade, o apoio foi mais baixo". Ainda assim, disse que "é algo que eu acredito que deva ser revisto", observando que o tema não está sob sua pasta. Mesmo assim, garantiu que seguirá defendendo o certame dentro da prefeitura: "Enquanto vereador com o pelouro da Juventude, serei um embaixador deste evento nas próximas reuniões", afirmou, descrevendo o Portugal Fashion como "um evento de ponte entre quem sai da universidade para o mundo profissional".

Entre a volta de Diogo Miranda, a pausa anunciada por Susana Bettencourt e a confiança expressa pela organização, o Portugal Fashion voltou a enfatizar criatividade, reinvenção e ambição internacional como bases de uma moda portuguesa que continua ampliando sua presença além-fronteiras.

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